Post de Oliver
O ALARME QUE NINGUÉM OUVE
Sobre o analfabetismo intelectual da era da informação
Há uma ironia cruel no coração da nossa época, ironia que os entusiastas do progresso tecnológico não conseguem, ou não querem, encarar: nunca o ser humano teve acesso a tanto conhecimento, e nunca foi tão resistente a pensar. A biblioteca universal que os humanistas do Renascimento sonharam como utopia está hoje no bolso de cada adolescente, convocável com um toque do polegar, e no entanto o efeito desta disponibilidade não foi a iluminação das massas, mas uma espécie de saturnismo cognitivo, uma intoxicação lenta que paralisa precisamente as faculdades que o acesso à informação prometia despertar. O mundo está emburrecendo, não apesar da informação, mas por causa dela, ou antes: por causa da forma específica como a informação, na era digital, se organiza, se distribui e se consome.
Este é o paradoxo que deveria ocupar os filósofos, os educadores, os estadistas. Não ocupa. E a razão pela qual não ocupa é ela própria parte do diagnóstico: a incapacidade de reconhecer um problema exige precisamente as faculdades interpretativas que o problema corrói. Estamos diante de uma patologia que destrói os instrumentos necessários ao seu próprio reconhecimento, o que a torna particularmente insidiosa, particularmente difícil de nomear, e politicamente muito conveniente para quem governa massas que já não sabem que foram governadas.
A primeira coisa a dizer é que informação e conhecimento não são a mesma coisa, e que esta distinção, filosoficamente óbvia desde Platão, foi silenciosamente apagada do vocabulário cultural dominante. Informação é o dado bruto: o facto, a cifra, o evento, o nome. Conhecimento é a relação que o espírito estabelece entre os dados, a hierarquia que lhes confere, a estrutura em que os insere, o julgamento que deles extrai. Saber que Auschwitz existiu é informação. Compreender o que Auschwitz significa para a condição humana, para a teoria do Estado, para a filosofia moral, para a possibilidade ou impossibilidade de Deus, isso é conhecimento. A diferença não é de grau, mas de natureza.
Hannah Arendt, num dos diagnósticos mais lúcidos do século XX, argumentou que o totalitarismo se tornava possível não apenas pela crueldade dos carrascos, mas pela irreflexão dos executores ordinários, homens que simplesmente não pensavam no sentido pleno do termo, que executavam ordens sem jamais submeter essas ordens ao tribunal da consciência moral. A banalidade do mal era, antes de tudo, uma banalidade do pensamento. O que Arendt não podia prever é que o capitalismo tardio encontraria uma forma de produzir esta mesma irreflexão sem necessidade de qualquer aparato totalitário: bastava criar uma arquitetura de atenção que tornasse o pensamento lento, desconfortável, socialmente indesejável, e economicamente irrelevante.
A atenção é o recurso escasso do nosso tempo, e há uma indústria colossal dedicada à sua captura e fragmentação. Não é uma conspiração, é uma lógica: cada segundo de concentração sustida que uma plataforma digital consegue subtrair ao pensamento genuíno é tempo convertível em dado publicitário. O resultado estrutural desta lógica é uma população treinada para percorrer informação à velocidade do scroll, incapaz de habitar uma ideia o tempo suficiente para a interrogar, para a virar do avesso, para a confrontar com a sua contrária. O que se perde não é a informação, que prolifera. O que se perde é o pensamento sobre a informação, que murchou.
O analfabetismo intelectual contemporâneo não se parece com o analfabetismo clássico. O analfabeto clássico não sabia ler. O novo analfabeto lê fluentemente, frequentemente com velocidade impressionante, mas não compreende no sentido profundo do termo: não retém, não articula, não contraria, não sintetiza. Lê como quem passa os olhos por uma janela de comboio em movimento, vendo tudo e retendo nada, incapaz de habitar qualquer paisagem. É um analfabetismo pós-alfabeto, o que o torna muito mais difícil de diagnosticar e muito menos vergonhoso aos olhos de quem o sofre.
Nietzsche, com a clarividência que o século XIX ainda permitia, anteviu em parte este processo quando escreveu, no início de "Assim Falava Zaratustra", sobre os últimos homens: criaturas que piscam o olho e dizem ter inventado a felicidade, que evitam toda a dificuldade, que fazem de cada abismo uma planície transitável. O último homem de Nietzsche não era estúpido no sentido convencional, era indiferente à profundidade, satisfeito com o superficial, imune ao chamamento do difícil. O que Nietzsche descreveu como uma possibilidade filosófica, a nossa época realizou como condição sociológica média.
Este novo analfabeto tem opiniões sobre tudo. É nisto que difere do ignorante tradicional, que pelo menos sabia que não sabia. O analfabeto intelectual da era da informação confunde ter acesso a factos com ter compreensão dos factos, confunde ter visto um documentário com ter estudado um problema, confunde a familiaridade superficial com o domínio. É o que Bertrand Russell chamaria de "a tirania dos incompetentes confiantes", embora Russell não tivesse podido imaginar a escala e a velocidade com que as plataformas digitais amplificam e premiam essa confiança, pois o algoritmo favorece quem fala com assertividade sobre quem fala com nuance.
Seria demasiado fácil atribuir tudo às plataformas tecnológicas. A verdade é que os sistemas educativos ocidentais contribuíram, décadas antes do smartphone, para a preparação deste terreno. Sob a influência de pedagogias que confundiram a dificuldade com a opressão, e o esforço com o trauma, muitos sistemas educativos progressistas expurgaram dos seus currículos exactamente o que a educação deve conter: a exigência, a resistência, o texto difícil que não cede na primeira leitura, o problema que exige perseverança, a obra que não entretém mas que transforma.
Pascal escreveu que toda a miséria do homem deriva da sua incapacidade de ficar quieto num quarto. A educação moderna, em vez de cultivar essa capacidade, criou currículos pensados para não entediar, para ser "relevantes", para manter o aluno "motivado", conceito cujo peso psicológico é inversamente proporcional ao seu rigor intelectual. O resultado é uma geração que desenvolveu uma intolerância aguda ao aborrecimento produtivo, que é precisamente o estado mental em que a maior parte do pensamento genuíno ocorre: aquele momento de vazio incómodo, anterior à ideia, em que a mente, não encontrando distração imediata, começa a trabalhar sobre si própria.
Nietzsche escreveu também, nos seus aforismos sobre o estilo, que há pensamentos que chegam apenas quando se caminha, e que muitos dos seus pensamentos nasceram na solidão e no silêncio. A arquitectura cognitiva que a nossa época oferece é exactamente o oposto desta condição: um ruído contínuo, uma interrupção permanente, uma oferta ilimitada de estímulos que torna a solidão pensante não apenas rara, mas quase clinicamente insuportável para quem foi criado na anestesia digital.
Tudo o que foi dito até aqui tem consequências políticas que deveriam perturbar qualquer cidadão com alguma memória histórica. A democracia, como forma de governo, pressupõe uma cidadania capaz de deliberação, de julgamento, de avaliação crítica de argumentos e de interesses contrapostos. Não pressupõe que todos os cidadãos sejam filósofos, mas pressupõe que exista uma massa crítica de pessoas capazes de resistir à manipulação, de distinguir o demagogo do estadista, de avaliar a substância para além da forma. Quando esta massa crítica se dissolve, a democracia conserva a sua forma, as eleições, os partidos, os discursos, os parlamentos, mas perde a sua substância.
Alexis de Tocqueville, num dos diagnósticos mais prescientes da história do pensamento político, advertiu que o despotismo democrático não precisaria de chains and dungeons como o despotismo clássico: seria um despotismo suave, que se contentaria com infantilizar os cidadãos, mantendo-os num estado de dependência agradável, sem os oprimir de forma visível. Tocqueville chamou a este processo "servilidade doce". O que o pensador francês não previu é que esta servilidade não seria imposta de fora, mas desejada de dentro, abraçada voluntariamente por populações que preferem a anestesia ao pensamento, e que encontraram nos ecrãs uma forma de despotismo voluntário, confortável, colorido, e permanentemente disponível.
O emburrecimento do mundo não é apenas uma tragédia cultural, é uma catástrofe política em câmara lenta. As populações que não sabem pensar são populações que não sabem resistir. E as populações que não sabem resistir são populações que serão governadas, com ou sem o seu consentimento informado, frequentemente com o seu consentimento entusiasmado, por quem souber explorar com suficiente destreza os mecanismos do medo, do ressentimento e da simplificação.
Contra tudo isto, é necessário reafirmar, ainda que sem ilusões sobre a audiência desta reafirmação, o que significa pensar. Pensar não é acumular informações. Pensar não é ter opiniões. Pensar não é saber argumentar em favor de uma posição previamente escolhida, o que é antes advocacia do que filosofia. Pensar é a disposição para habitar a dificuldade sem a resolver prematuramente, para manter a tensão entre ideias contraditórias sem colapsar numa solução cómoda, para revisar as próprias convicções à luz de evidências e argumentos, para distinguir o que se sabe do que se supõe, e para reconhecer, com honestidade intelectual que custa, os limites do próprio entendimento.
Sócrates disse que o reconhecimento da própria ignorância era o princípio da sabedoria. Esta afirmação, repetida até à banalidade nos manuais de filosofia, é na prática profundamente subversiva: numa cultura que recompensa a confiança assertiva e pune a dúvida pública, a disposição socrática é uma forma de resistência. O homem que diz "não sei", que hesita antes de opinar, que exige tempo para pensar sobre o que lhe perguntam, é hoje lido como fraco, evasivo, ou suspeito. O homem que responde imediatamente, com firmeza e sem nuance, é lido como competente, seguro, e digno de confiança.
Esta inversão axiológica, em que a velocidade substitui a profundidade e a assertividade substitui a sabedoria, é um dos sintomas mais claros do emburrecimento colectivo. E é tanto mais perigosa quanto menos consciente é: não é o resultado de uma decisão, mas de uma acumulação de pequenos hábitos cognitivos, cada um aparentemente razoável, que em conjunto constroem uma arquitectura mental refratária ao pensamento genuíno.
O mundo soa um alarme. Soa-o em cada eleição em que a demagogia derrota a complexidade, em cada debate público em que o slogan vence o argumento, em cada sala de aula em que o professor sente que não pode ser exigente sem ser denunciado, em cada redacção em que a profundidade é sacrificada ao click, em cada conversa em que a discordância é lida como agressão e a nuance como traição.
Muito poucos ouvem este alarme. E a razão pela qual muito poucos o ouvem não é que sejam malvados, ou que não se importem, mas que o próprio processo de emburrecimento colectivo atrofia precisamente as faculdades necessárias para reconhecer o emburrecimento. É uma armadilha perfeita: quanto mais efectiva a anestesia cognitiva, mais improvável o despertar.
Camus escreveu que é necessário imaginar Sísifo feliz. É talvez necessário, no nosso tempo, imaginar um punhado de pessoas que continuam a pensar, a ler, a hesitar, a duvidar, a exigir de si próprias a dificuldade, sabendo que fazem parte de uma minoria que encolhe, e fazendo-o assim mesmo, não por heroísmo, mas por uma espécie de recusa fundamental a abdicar da faculdade que, mais do que qualquer outra, define o que é ser humano: a capacidade de interrogar o mundo e a si próprio, sem garantias de resposta e sem o conforto da certeza fácil.
O alarme soa. A questão não é se alguém o ouvirá. A questão é se os que o ouvirem terão ainda a energia moral para não apertar o botão do sonhar mais um pouco.
Arsenio Joel Mata
Linhas bastante profundas!
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Maria Florinda Rodrigues
A ditadura da informação.
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Victor Silva Ferreira
Excelente referência! Parabéns! Talvez o maior mal dos nossos tempos.
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Lucia Inubia
Excelente, Oliver.
“... porque meu povo se perde por falta de conhecimento; por teres rejeitado a instrução.” Oséias 4,6.
Há, em curso, uma revolução pedagógica programada, silenciosa, com o objetivo de tornar a população uma massa ignorante e submissa à classe governante. E está fazendo um grande sucesso no Brasil, em que as crianças já não possuem o domínio da leitura e da escrita. Talvez, já alcance os professores.
“... o papel da escola foi redefinido e sua missão principal não consiste mais na formação intelectual, e sim na formação social das crianças.” (livro Maquiavel Pedagogo ou o ministério da reforma psicológica, de Pascal Bernardin).
Não existem povos, e sim manadas. Apesar da realização de eleições, as democracias sucumbem e instalam-se governos autoritários, em que o Estado manipula, interfere, controla, intimida, vigia, prende e mente, pois a propaganda veiculada faz acreditar que tudo é feito no intuito de “salvar a democracia”.
“O alarme soa”, diz Oliver. Quem ouvirá? Ou estarão satisfeitos, entregues e submissos à estratégia do benefício imediato, do pão e circo?
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Edelveis Storck
Grata por nos lembrar que "o alarme soa". Espera-se que muitos o ouçam, acordem e, sobretudo, ajam em prol de mudanças para o bem da humanidade.
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Raul Fonseca Raul
Magistral a imagem da atualidade … 


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Daise Aparecida Vilela Tostes
Com tão extensa produção temática, questiono se não é uma IA. Muito bom, de qualquer forma.
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Ivaniabreu Neiva
Texto muito bom, poderia ser mais direto sem tantos rodeios de linguagem quase perdendo o verdadeiro objetivo da crítica de assuntos comuns e atuais. Mesmo sendo um pouco enfadonho e repetitivo com floreio desnecessário.bom dia
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Maria Cristina Siqueira Guião
Temos visto este emburrecimento total, geral e irrestrito tomar conta da humanidade indefesa diante do avanço da informática, chamada de I A, que embora atue com dados vindo dos cérebros humanos, derruba todas as possibilidades de que a pessoa queira continuar a se perguntar desde as questões mais simples até as mais difíceis, pois apertar o botão de acesso ao Google se tornou hábito vicioso. Não há retorno nem saída.
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Aldo Damásio
A vida não foi feita para ser retida, mas sim para ser vivida antes que acabe.
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Renate Maria Wedderhoff
Bem verdade!
Hoje não se sente o manusear das páginas das enciclopédias. O barulho de virar as páginas. Isso é mágico!
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Jose Carlos Olliveira S Vx
escreveu com ia
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Pedro Marcos Rodrigues Rodrigues
Uma verdade também que podemos incluir e constatar com o fato, que a técnica de dominação por todo o tempo foi pela força bruta, primeiro pela voz de comando que rusticamente ordenava e quem demorasse a obedecer ia para a fase ostensiva com violência física e escravidão, onde a vida e as vidas eram totalmente do dono do poder, e com seus claros propósitos. E agora essas vozes de comando vem sutilmente e consegue pela atração travestida de bondade e distração atrair e dominar quase toda uma população fácil de tão desatentos que estamos.
