domingo, 28 de novembro de 2021

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Olhando esse aterro de lixo urbano que foi parcialmente removido, me fez retroceder no tempo, levando-me à época de criança, morando em uma cidade do sertão o RN, quando atrás de cada casa da cidade, ou da área rural, havia um espaço muito íntimo, importante, chamado de MONTURO, que recebia todos os resíduos orgânicos e inorgânicos, descartados  nas atividades do LAR, mas também recebia os excrementos já que não havia esgotos (na maioria das cidades do sertão NE ainda é assim) e os vasos sanitários eram construídos (o banheiro) em cima da fossa "séptica", com capacidade de armazenar no máximo 2m³, escavadas em terreno pedregoso, com lajedos, da caatinga; à noite as meninas faziam as "necessidades" no pinico (urinol) e pela manhã caminhavam 3 ou 4 metros, a partir da porta (traseira) da cozinha, para depositar fezes e urinas diretamente no MONTURO, mas o meninos, machos, levantavam-se à noite para fazer as "necessidades" diretamente no MONTURO; naquele tempo não havia embalagens de plástico (ou não era comum); As mercadorias (alimentos) compradas nas bodegas,  barracões, mercearias, padarias eram condicionados em papel de "embrulho", folhas com 0,5x1m, que os bodegueiros, com muita habilidade e maestria,  cortava os pedaços no tamanho certo para 1k, 2k, 3k, "embrulho" que parecia uma obra de arte; de  5k para maior usava-se sacolas de panos, tecidos de algodão, assim como eram os sacos que chegavam ao comércio com 60kg de feijão, farinha, açúcar, café (em grãos), etc. para o monturo doméstico também ia restos de comidas, cascas de frutas, sementes, e restos de animais que morriam de morte "morrida" ou de morte "matada" - galinhas, ratos, cobras; vez por outra se comprava sardinhas ou "carne em conserva" que vinham acondicionadas em latas de ferro, que iam para o Monturo; as roupas da gente eram feitas de tecidos de algodão, e quando ficavam muito velhas, que não dava para se "remendar", ia para o Monturo; os calçados - sapatos, sandálias, alpercatas, chinelo de rabicho eram de couro, ou tinham o rosto, arreatas (tiras de couros) de couro, e o solado de borracha de pneu de caminhão; quando envelheciam a peça de couro ia para o lixão, mas o solado de borracha era arrancado do calçado velho para ser colocado em outra sandália; os medicamentos vinham acondicionados em vasilhas de vidro, dentro de uma caixa de papelão, que, esvaziados - caixa de papelão e vidro, iam para o Monturo; Os urubus e os cachorros, se lhe convinham, comiam os restos de comida no Monturo, comiam os animais mortos, descartados no monturo, mas também comiam as fezes que eram depositadas diariamente  no monturo; o vidro (dos remédios) no monturo não trazia qualquer dano ambiental, e muitos vezes ficavam em casa para armazenar líquidos úteis, normalmente remédios como o "óleo de coco", banha de carneiro capado, banha de cobra, e por vezes peças ornamentais. Os papeis das embalagens se desintegravam facilmente pelas intempéries no Monturo; as latas de ferros, embalagens de "conservas" raras, se desintegravam pela ferrugem. Mas o MONTURO tinha outra utilidade no NE; segundo o cancioneiro Luiz Gonzaga, era no MONTURO onde se plantava milho com as primeiras chuvas do ano, de modo que quando o milho no roçado começa a "pendoar" (botar o pendão, já se estava comendo  "milho verde" do MONTURO.

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